É preciso cair para levantar

Nailanita Prette*

O Múltipla Dança, festival internacional dedicado à dança contemporânea e suas infinitas possibilidades, hoje já integra o calendário dos trabalhadores, fazedores, movedores da área. Como diz uma das grandes personalidades da dança Sandra Meyer (2020), artista, pesquisadora e professora, o Múltipla Dança vem para dar corpo às multiplicidades presentes na dança contemporânea e também sediar outra vertente de festivais, saindo da esfera da competitividade. Quando se fala em eventos de dança, em específico da região Sul do Brasil, é impossível não lembrar o espetacular Festival de Dança de Joinville (SC), que garante visibilidade internacional à cidade e a arte da dança. Porém uma questão que sempre permeia é: qual dança está em Joinville ou em festivais similares?

O Múltipla Dança, também realizado no Sul do País, apresenta outra forma de apreciar a dança, sua premissa tem como característica a pesquisa e a criticidade da dança contemporânea (MEYER, 2020). Em sua persistente 11ª edição, pode-se até dizer que no cenário brasileiro é um dos festivais pioneiros dedicados à essa linguagem. Mas o que seria a dança contemporânea? Questão cara e com múltiplas respostas, a programação do Múltipla Dança presenteia com esse retorno. Inúmeros pesquisadores dissertam sobre a indagação, entre eles a discussão de Laurence Louppe (1938-2012), crítica, historiadora e pesquisadora em dança. No seu livro “A Poética da Dança Contemporânea” (2012), ela afirma que a dança contemporânea ultrapassa a designação dos códigos em dança quando comparada a outras linguagens. Para ela, a filosofia dessa modalidade está em outro lugar, o corpo/sujeito e sua presentificação orgânica e real do mundo contemporâneo e suas relações. Abraçando uma abordagem interdisciplinar, não aponta técnicas, mas sim metodologias que nascem das investigações e caminhos produzidos pelo mover, a dança contemporânea é a dança do corpo, é a dança do signo do corpo (LOUPPE, 2012). Justo essas relações o Múltipla Dança evidencia, além de amenizar a carência no atual cenário de um festival não competitivo e que prioriza as múltiplas identidades dos modos contemporâneos de dançar. 

Neste 2021, o evento propôs também outras formas de dança com a ação inédita chamada Intervenções Digitais em que dois dos sete convidados, os bailarinos Vitoria Correia e Bruno Miranda têm como base a linguagem do balé clássico. O corpo dos intérpretes apresenta essa construção, os movimentos com fluxo contínuo, peso leve, espaços definidos, verticalizam e não buscam a entrega ao chão, mas que trazem as premissas contemporâneas, pois são atravessados, mostram a dança feita no momento que estavam imersos. Os cenários escolhidos pelos dois evidenciam seus cotidianos, desnudam as corporeidades e as trajetórias marcadas em seus movimentos. A dança urbana da b-girl Tais Matos, outra dos sete convidados, também traz uma linguagem amplamente incorporada em seus modos de dançar contemporâneos.

Vitoria Correia, que fez sua formação na Escola Bolshoi em Joinville, dança no 11º Múltipla Dança 
Chico Maurente/Foto Divulgação

Bruno Miranda, bailarino joinvilense que integrou a ação Intervenções Artísticas
Lauge Sorensen/Foto Divulgação

No 11º Múltipla Dança os espetáculos nacionais e internacionais foram disponibilizados gratuitamente na plataforma Youtube, os solos, as conversas com os artistas criadores e outros trabalhos pelo Instagram do evento. Nesta edição totalmente on-line é impossível apagar o que se vive no Brasil, assombrado pela pandemia da covid-19 que perdura há mais de um ano em um misto de anestesia, medo, raiva, indignação e mais um turbilhão de sentimentos. Imersos em tempos de quedas: baques na saúde, na economia, na vida, nos corpos. Assim, como em “Normal” da Cia. Alias (Suíça) do coreógrafo brasileiro Guilherme Botelho. Essa obra causou muitos devires, justamente por causa do período pandêmico, aqueles corpos caindo e levantando na maioria das vezes ainda em seu recuperar reverberavam o peso da queda. Os corpos ao verticalizarem deixavam seus rastros da queda e novamente sediam a gravidade, uma relação cíclica. Em outras conexões fora do espetáculo, os suspiros de esperança, os movimentos que partem do se deixar cair e vão carimbando marcas no corpo, assim como a pandemia que já provoca novas (in)tensões nas corporeidades e formas de estar no mundo. 

“Trottoir”, primeiro trabalho coletivo do bailarino brasileiro Volmir Cordeiro, impacta com corpos coloridos – figurinos de cores vibrantes
 Fernanda Tafner/Foto Divulgação

O Múltipla Dança apresentou trabalhos a priori ecléticos, mas que conversam entre si: na verdade são múltiplos. “Trottoir” do artista brasileiro Volmir Cordeiro impacta com corpos coloridos – figurinos de cores vibrantes. A tradução de trottoir é calçada e o espetáculo aborda as relações presentes nesse local da rua, que por sua vez é um lugar de passagem, onde muitas histórias e vidas marcam presença com seus corpos diariamente. Para além, é um espaço de atravessamentos, de construção de corporeidades. No tempo pandêmico ir às ruas foi algo tirado, passou a ser um ato de coragem e de necessidade por excelência. 

Apreciar os corpos que se tocam e se constroem em “Trottoir” relembram as quedas de “Normal” e como os humanos dependem um do outro para se afirmarem como seres sociais, de rua. Quando um cai, todos caem. “Trottoir” é vivo, queima, acorda, “Normal” é como uma anestesia que leva ao estado de vertigem, como a obra “Vertigem”, do artista Rodrigo Andrade, outro convidado das Intervenções Digitais. No corpo, a vertigem se reverbera em movimentos lentos, espaço indireto, peso forte que cede a gravidade, a pele gelada, mas por dentro desnorteios. “Vertigem” reflete as sensações interiores, mas com a força de lutar contra algo, sempre indo contra a maré de queda, de não se entregar à gravidade ou outras situações. De um lado, a entrega do corpo que é chamado para o chão que age como um ímã e, de outro, a luta para não se entregar. Até que ponto negar a queda nos torna mais fortes, nos deixa mais resistentes? Finalizo recordando Tais Matos com o corpo feminino em uma linguagem das danças urbanas que por muito tempo foi habitada majoritariamente por homens, a música apresentada juntamente com o futebol, em específico nos jogos masculinos, agora dançada por uma mulher. Movimentos fortes, vigorosos, ela com semblante aberto oferece esperança. Uma dança que faz sentir confiança e força, quando a artista finaliza sua obra e abre os braços, ela abraça. E assim, como Tais Matos seguimos. Vai Brasil com a esperança que nos resta, com o corpo aberto e a certeza de que dias melhores virão. Vamos acreditar, cair e levantar quantas vezes mais for preciso.

Ao som do Hino Nacional brasileiro, Tais Matos mostra movimentos fortes, vigorosos e semblante aberto que sinaliza esperança 
Foto Divulgação


*Mestranda em artes na linha de artes da cena pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), licenciada e bacharela em dança pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), técnica em dança pela Escola Técnica de Arte Municipal Santa Cecília. Artista e professora das artes do corpo com ênfase em modos contemporâneos de dançar e performance. Com estudo e interesse nas áreas das corporalidades, corporeidades, construção e fruição do corpo na arte.

REFERÊNCIAS

LOUPPE, Laurence. Poética da Dança Contemporânea. Tradução: Rute Costa. Lisboa. Orfeu Negro, 2012.

MEYER, Sandra. Múltiplas Danças | Múltiplas Críticas | Múltiplas Escritas. In: CESAR, Marta; XAVIER, Jussara (organizadoras). Múltipla Dança: festival internacional de dança contemporânea [livro eletrônico]. Florianópolis, SC: Jussara Xavier, 2020.